hoje é noite De poesia. poDemos contar convosco?
Hoje é dia de mudar hábitos
E não ser eu. Ou de ser
Eu um outro. É dia de sair
Do claustro onde a chuva
Só chega na forma de sangue
E de pecado. Hoje é dia
De acender cigarros, mil,
Rapidamente – mas não fumá-los;
Ao invés, vê-los consumir-se,
Um por um, um por outro,
Faróis de carros descendo a avenida
Em hora de ponta, alcatroando-se
Pelo horizonte – sem que o tempo lhes possa
Acudir. É dia de me sentar à beira-mar,
Ao fundo de um rio, talvez,
Sentindo a água doce ser tomada
Pelo sabor do sal… é dia de
Inventar uma palavra nova ou
Até talvez se a maré estiver a
Vazar e as amêijoas saltarem,
Promíscuas, da lama para os meus braços
Ou para o meu colo, de escrever uma nova teodiceia.
Mas agora hoje já é fim de tarde
E este sol não se voltará a pôr,
Outro amanhã virá mas este
Não nunca mais…
A noite é escura. E hoje,
Às onze e onze em ponto,
Vou deixar-me ir no barco de
Colombo até ao outro lado do mundo
Onde dançarei com os índios.
Nus. Promíscuos. Felizes.
Alexandre Homem Dual




